01.11.2026

À conversa com Eng.º Pedro Abegão

01.11.2026

À conversa com Eng.º Pedro Abegão

'A Ponte 25 de Abril é uma infraestrutura única em Portugal (…) as inspeções permitem o conhecimento do estado de conservação dos elementos estruturais (…) fundamental para garantir a segurança e a durabilidade da Obra de Arte'

É gestor operacional da Ponte 25 de Abril. Quais são as suas principais funções?

As principais funções consistem em promover, assegurar e supervisionar a inspeção da ponte, assegurar a manutenção, conservação, beneficiação ou grande reparação, de todos os elementos estruturais da ponte, com exceção dos pertencentes ao domínio público ferroviário – da responsabilidade da área ferroviária da Infraestruturas de Portugal (IP) – e dos incluídos na concessão rodoviária atribuída à Lusoponte – pavimento, sinalização e iluminação rodoviária – e, por fim, colaborar, quando exigível, na coordenação e gestão da segurança da exploração rodoviária e ferroviária. Se a Ponte 25 de Abril fosse um prédio, as funções seriam as de administrador do condomínio.

A Ponte 25 de Abril é a única ponte em Portugal que tem uma manutenção diária. Fale-nos desse trabalho e dos procedimentos de segurança.

A Ponte 25 de Abril é uma infraestrutura única em Portugal, pelas suas características físicas e dimensionais, por possuir uma gestão repartida por mais do que uma entidade, e por ter um número de utilizadores a ultrapassar os cem milhões por ano. A gestão operacional centraliza o cumprimento das atribuições da IP quanto às fundações, pilares, viga de rigidez, cabos de suspensão e amarrações, e ainda os constituintes do viaduto de acesso norte. As tarefas diárias são a inspeção e a manutenção/conservação de rotina, asseguradas no âmbito de um contrato outorgado com o Instituto de Soldadura e Qualidade, por uma equipa multidisciplinar de 26 elementos. Trata-se de uma tarefa diária, mas aplicam-se periodicidades diferentes – semanal, mensal, trimestral, semestral ou anual. Enquadram-se aqui trabalhos como a reposição da proteção anticorrosiva, soldaduras, reparações elétricas, etc. Periodicamente, ocorrem tarefas de inspeção e de manutenção/conservação ditas especiais, como as inspeções subaquáticas aos pilares implantados no leito do rio, que inclui o levantamento batimétrico, a determinação experimental das forças instaladas nos pendurais e a manutenção dos aparelhos de apoio. Tudo o que não seja possível resolver através da manutenção/conservação é encaminhado para a beneficiação/grande reparação/reformulação.

No quotidiano da Ponte 25 de Abril, o cumprimento dos procedimentos de segurança é imperativo. É estritamente proibido atravessar as vias rodoviárias, devendo utilizar-se os passadiços laterais inferiores; é proibida a invasão das zonas de risco A (circulação de comboios) e C (influência da catenária) sem a prévia implementação das medidas de segurança exigíveis; e é obrigatório o uso de equipamentos de proteção coletiva e individual. Qualquer deslocação à ponte deve ser efetuada por duas pessoas, no mínimo; todas as entradas e saídas devem ser comunicadas à central de segurança da IP, e caso a previsão de chuva e vento forte se concretize, o planeamento dos trabalhos é reprogramado, sempre que possível.

Em relação às inspeções subaquáticas, qual a importância deste tipo de monitorização para garantir a segurança e a durabilidade da infraestrutura?

Este tipo de inspeção permite o conhecimento do estado de conservação destes elementos estruturais e a deteção de qualquer anomalia e/ou dano que exija uma intervenção, pelo que é fundamental para garantir a segurança e a durabilidade da obra de arte. Outra verificação importante, normalmente executada em simultâneo com a inspeção subaquática, é o levantamento batimétrico em redor das fundações, que permite conhecer a dinâmica das correntes e quais os seus efeitos em termos da orografia do leito do rio, o que permite a deteção de potencias infraescavações junto às fundações, fenómeno que poderia colocar em risco a estabilidade e, no limite, a própria integridade da obra de arte.

Nas duas últimas edições, os respetivos concursos públicos lançados pela IP foram ganhos pela BETAR. O caderno de encargos englobava a preparação e planeamento dos trabalhos, a coordenação da equipa de mergulho, o acompanhamento técnico e orientação das inspeções, o tratamento e análise dos dados recolhidos, a avaliação do estado de conservação das fundações e a caracterização da zona envolvente, e apresentação de eventuais medidas corretivas necessárias.

Historicamente, os resultados na Ponte 25 de Abril têm-se mantido consistentes, atestando o bom estado de conservação das estruturas e a ausência de alterações significativas entre inspeções.

E ainda dispõe de um sistema de monitorização, em parceria com o LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

O sistema de monitorização estrutural, concebido e implementado pelo LNEC, ao abrigo de um protocolo de cooperação, é composto por um conjunto de sensores cujo objetivo é a medição de variações geradas por possíveis cenários de dano estrutural, como acelerómetros, que medem as vibrações; anemómetros, que medem a velocidade e direção do vento; clinómetros, que medem rotações; extensómetros, que medem extensões e tensões no aço; transdutores de deslocamentos, que medem deslocamentos relativos; palmilhas de pesagem, que medem o peso de composições ferroviárias; e termómetros, que medem a temperatura no aço. Destaca-se o acelerómetro triaxial, que permite detetar vibrações no solo como os originados por um evento sísmico. A medição de todas as grandezas é feita de modo automático sendo os dados adquiridos analisados posteriormente.

Esta entrevista é parte integrante da revista Artes&Letras #194, de novembro de 2026

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