01.06.2025

À conversa com o Arq. Paulo Martins Barata

01.06.2025

À conversa com o Arq. Paulo Martins Barata

'Sempre entendi como essencial uma dimensão crítica e reflexiva (...) A arquitetura só tem relevância para a história se tiver um propósito crítico de transformação da sociedade, da cidade e da paisagem'

Completou os estudos fora do país, publicou artigos, deu palestras… De tudo o que já fez a par do projeto, o que destaca?

Ambicionava conhecer diferentes lugares e práticas por isso, no 2º ano do curso, em 1983, fui trabalhar para a Finlândia, onde conheci o trabalho de Aalto e o classicismo nórdico de Lewerentz e Asplund. Visitei a URSS de Gorbatchev e fui exposto a todo aquele imaginário do brutalismo soviético.  Quando acabei o curso, em 1988, fui trabalhar para Miami e aí decidi candidatar-me a um MBA em Edimburgo. Voltei a Portugal, onde, com os meus sócios, em 1990, tínhamos fundado o PROMONTORIO. Anos mais tarde, achei interessante fazer um doutoramento em teoria e crítica e escolhi a ETH Zurich – por recomendação do Jacques Herzog – que era, na altura, uma escola muito fechada no mundo “pangermânico”. Fui o primeiro doutorado português em arquitetura na ETH. Durante o doutoramento fui para a universidade de Columbia, em Nova Iorque, a convite do crítico e historiador Kenneth Frampton.

Sempre entendi como essencial uma dimensão crítica e reflexiva para uma prática profissional; uma dimensão capaz de ultrapassar a sedução, a vacuidade e os lugares-comuns. A arquitetura só tem relevância para a história se tiver um propósito crítico de transformação da sociedade, da cidade e da paisagem. Por isso vemos hoje tantos projetos de grande sucesso formal, fundados exclusivamente no poder da imagem, mas culturalmente estéreis, sem um propósito maior. Nesse sentido, talvez o evento mais fascinante que coorganizei, foi o seminário de arquitetura Prototypo, que juntou 38 personalidades altamente conflituantes: desde o contexto do Mitteleuropa suíço, austríaco e alemão (Roger Diener, Hermann Czech, Marcel Meili), ao estertor das práticas desconstrutivistas e paramétricas (Hani Rashid/Assymptote), ao então pujante discurso holandês (Rem Koolhaas, Winny Mass, MVRDV, Ben van Berkel), às fraturas da teoria tectónica entre europeus e americanos (Kurt W. Forster, Luis Fernández-Galiano, Kenneth Frampton, Mark Wigley), etc. Foi um momento muito particular. Não voltei a ver um debate com esta intensidade crítica e acredito que precisamos de fazer outro com essas mesmas características.

O que é que conduziu o PROMONTÓRIO à robustez que têm hoje e como perspetiva o futuro?

A nossa convicção sempre foi que a arquitetura é, pela sua natureza disciplinar, uma prática colaborativa. O nosso atelier é, ainda hoje, difícil de enquadrar no contexto português, que sempre foi preferencialmente historiografado em torno das autorias e correspondentes genealogias, e menos em torno das práticas e modelos organizacionais. Os princípios enunciados do sistema de robustez (solidez, estabilidade e durabilidade), por sua vez, partiram de uma tentativa de ver refletida na prática profissional uma possível leitura da teoria tectónica. Creio que hoje, a tectónica e a ideia de uma cultura de resistência perderam oportunidade e esses pressupostos terão de ser reavaliados à luz do meta-modernismo.

Diria que consolidámos a nossa internacionalização, principalmente no Médio Oriente, e temos por isso um fluxo recorrente de projetos de média e grande dimensão que nos permite alguma estabilidade. Estamos, por exemplo, a fazer o projeto de um edifício que é a sede de uma espécie de “Fundação Gulbenkian”, em Riade, e dois grandes bairros residenciais em Doha e Jeddah. Reiniciámos uma colaboração com os EUA que, sem prejuízo do atual contexto político, entendemos como um projeto a longo prazo.

E na arquitetura nacional, o que é que o preocupa e como vê o caminho que está a seguir?

O que parece tragicamente irresolúvel é o aumento exponencial da desigualdade e da pobreza trazido pelo fim do capitalismo, sem que tenhamos coletivamente conseguido inventar um novo modelo capaz de redistribuir a riqueza, aumentar a igualdade e aplacar o legítimo descontentamento de um espectro da sociedade recentemente desempoderado.  A crise global da habitação, que afeta até economias estruturadas, deveria pôr os governos europeus em alerta vermelho. Mas o excesso de regulação, e a incapacidade de reverter ou simplificar as políticas, levou-nos a um estado de paralisia com consequências imprevisíveis. Os custos de contexto são galopantes, os projetos levam anos a ser aprovados. Como ultrapassar esta tragédia autoinfligida?

Por outro lado, apesar da crise de valores, creio que paradoxalmente vivemos um dos momentos mais criativos da arquitetura dos últimos 20 anos, e da portuguesa em particular. Agrada-me que muitos ateliers tenham sido capazes de ultrapassar aquele detestável formalismo no qual a minha geração se acantonou ao abrigo do Siza, naquilo a que chamo o “impulso escultórico”. Geometrias formalizadas a partir de prostéticos de pladur em branco lixivia de uma espacialidade fake. Dito isto, preocupa-me que esta nova geração, viajada e conhecedora das novas condições e realidades da disciplina, imposta pelo BIM e pela IA, continue quixotescamente a tradição do pequeno atelier com todas as limitações estruturais que o impede de ter uma intervenção de maior escala ao nível da paisagem e da cidade.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #177, de junho de 2025

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