01.05.2025

À conversa com o Eng.º Pedro Conceição

01.05.2025

À conversa com o Eng.º Pedro Conceição

'Esta é uma concessão distintiva, tem um forte pendor paisagístico, […] o nosso ativo tem (…) estradas com 12 anos e outras com 100, […] e outro grande desafio é a insularidade, (…) estamos sempre à distância de, pelo menos, duas semanas'

Tem mais 18 anos de experiência em operação rodoviária. Como chegou à gestão de infraestruturas de transportes e quais as suas principais funções como Gestor de Manutenção?

Terminei o curso em 2004 e estava preparado para qualquer atividade. Na altura, fui trabalhar para um empreiteiro, na zona centro do país, cuja especialidade eram Obras Públicas, na área de estradas. Estive nessa empresa cerca de 2 anos e depois concorri a uma vaga para chefe de manutenção nos Açores. Muito resumidamente, sou o responsável por todos os serviços de manutenção e vigilância. A equipa de vigilância que coordeno trabalha 24 sobre 24 horas e ainda temos o dispositivo de manutenção. A parte de recursos humanos envolve uma gestão complexa. Depois tenho o trabalho mais técnico que é o planeamento dos trabalhos, a supervisão e o acompanhamento orçamental. Sou também responsável por gerir todas as inspeções e manutenções e, em função dos resultados, desenvolver e planear os trabalhos corretivos. Faço a gestão dos equipamentos, aprovisionamento de stocks e tenho de garantir que temos sempre o ativo nas devidas condições. Costumo dizer que se o nosso trabalho for bem feito, ninguém dá por nós.

Inaugurada em 2011, a Euroscut Açores tem uma extensão de 93 quilómetros que ligam as principais localidades da ilha de S. Miguel. Quais os principais desafios e particularidades da concessão?

Esta é uma concessão distintiva, tem um forte pendor paisagístico, somos obrigados a ter muito cuidado e gastamos muitos recursos com o paisagismo. A ilha tem uma vegetação exuberante que tem de ser cuidada e controlada. O respeito pela natureza é uma prioridade, o uso de herbicidas químicos está muito condicionado e procuramos que a estrada não impacte muito com a envolvente. Depois temos outras particularidades, fazemos a gestão de um conjunto de vias muito diferentes entre si. Temos alguns quilómetros de estrada em perfil de via rápida, estradas de uma só via em cada sentido e ainda um troço de estrada de montanha com 6m de largura. O nosso ativo tem diferenças de idade muito grandes, umas estradas têm 12 anos e outras 100, e os materiais usados foram completamente diferentes, temos Passagens Hidráulicas do mais moderno que existe e outras feitas em pedra. Outro grande desafio é a insularidade, que condiciona imenso a nossa operação. A ilha não é muito grande e tem 125 mil pessoas, isto quer dizer que temos dificuldade em ter grandes fornecedores. Estamos afastados de alguns serviços mais profissionalizados, como por exemplo da Betar, que faz um trabalho altamente especializado e tem de vir do continente para nos prestar os seus serviços. O facto de vir quase tudo de fora torna as coisas mais difíceis, dispendiosas e demoradas. E é igual com os materiais. Cerca de 90% do que usamos na via vem de fora e estamos sempre à distância de, pelo menos, duas semanas, o que nos obriga a ter muita cautela no aprovisionamento dos materiais.

E como avalia a prestação da Betar?

Desde sempre que a Betar é o nosso parceiro preferencial na gestão das Obras de Arte. Todas as inspeções têm sido feitas pela Betar e já adquirimos o software GOA que nos permitiu fazer um arquivo muito bom. Não se perde nenhuma informação, o que é excelente, e é possível fazer consultas muito personalizadas e extrair tudo com muita rapidez. A forma como está permanentemente a integrar as novas inspeções também é ótimo e, nesse sentido, as inspeções feitas pela Betar também nos ajudam imenso porque, quando temos de fazer intervenções, os relatórios da Betar vêm com muito detalhe e é só pegar neles e aplicar.

Quais são as suas perspetivas e desafios para o futuro?

Trabalhar nos Açores tem os seus desafios, mas é mais fácil equilibrar a vida profissional com a pessoal, porque ninguém perde 1 hora nas deslocações para o trabalho. Tudo é à escala pequena. Eu consigo percorrer a minha concessão toda num dia e é fácil sair do trabalho e ir buscar os miúdos à escola. Quanto à empresa, o nosso ativo vai envelhecendo e torna-se mais exigente, temos de fazer investimentos maiores. Por outro lado, as alterações climáticas já se fazem sentir. As temperaturas médias têm sido superiores e a vegetação cresce mais rapidamente, o que faz com que tenhamos de aportar ainda mais recursos a esta atividade. Ocorrem também mais fenómenos extremos, como ventos fortes, o que nos levou a implementar um plano para fazer a substituição e reforço de algumas estruturas, como os pórticos de sinalização. Outra coisa que estamos a fazer é a adoção de viaturas eletrificadas na concessão. O facto da ilha ser pequena permite que a utilização de veículos elétricos possa ser equacionada sem receios, porque a autonomia aqui não é um problema. Há quase 2 anos que temos viaturas elétricas e os resultados são positivos, até porque os carros têm menos problemas mecânicos, os outros paravam um a dois meses na oficina à espera de peças. Isto para além das questões ambientais que são uma preocupação da concessão. Já temos pavimentações feitas com misturas de materiais reciclados porque temos muita sensibilidade para o tema ambiental.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #176, de maio de 2025

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